Fertilidade do Solo — Adubação e Correção
Panorama e exigência nutricional do eucalipto
O eucalipto responde por cerca de 68% dos ~7 milhões de hectares de plantios florestais do Brasil FE-001FE-097, e seu salto de produtividade foi construído sobre solos frágeis, de baixa fertilidade natural, sob rotações sucessivas que impõem intensa exportação de nutrientes e risco de depleção do sítio FE-041FE-053.
A evidência da base mostra que os maiores teores estão nas folhas — em Eucalyptus urophylla × E. grandis aos 60 meses no DF: N = 13,55; K = 8,52; Ca = 7,12; Mg = 2,44; S = 1,76 e P = 1,33 g kg⁻¹ — mas a maior parte do conteúdo total fica no lenho (69% da biomassa seca) FE-166FE-093. O potássio é dos nutrientes mais acumulados e o mais exportado pela colheita, agravado em Cerrado, onde sua disponibilidade é muito baixa FE-169. A ordem de exigência coloca N e K no topo, com Ca relevante; a eficiência é clone-dependente (em solução nutritiva: I144 > 386 > 58 ≈ GG100 > VM1 > I042) FE-160. Descascar a madeira no campo, deixando a casca no talhão, aumentou o suprimento de nutrientes em 8–11% FE-001FE-097. Ao longo de vários ciclos no Vale do Rio Doce houve redução de Ca²⁺, Mg²⁺, K⁺ e pH e aumento de Al³⁺ — só o P (Mehlich-1) subiu —, sinalizando necessidade de doses maiores que as usuais FE-158. Já existem faixas de suficiência de macronutrientes calibradas por boundary line para eucalipto FE-164.
Correção do solo: calagem e gessagem
Nos solos ácidos e álicos onde o eucalipto cresce, a calagem é alicerce. Em E. dunnii sobre Cambissolo alumínico, a calagem (elevar o pH em água a 5,5 pelo método SMP) aumentou a matéria seca, o crescimento e o acúmulo e a eficiência de uso do P FE-002FE-085. As maiores produções ocorreram no maior nível de calagem e — ponto prático — os níveis críticos de P no solo e na planta caíram com a calagem, ou seja, corrigir a acidez "faz o fósforo render mais" FE-085. A resposta é clone-dependente: os teores de P influenciam a necessidade de calagem entre clones FE-003. Em E. pellita na Orinoquia colombiana, o dolomítico (0–3 Mg ha⁻¹) teve efeito de linear a logarítmico conforme o local FE-092FE-025.
Dois riscos: calagem excessiva reduz a eficiência de fosfatos naturais reativos (Gafsa) FE-002; e estoques altos de Ca e Mg em profundidade podem indicar lixiviação do calcário, reforçando a incorporação/subsolagem no preparo FE-001FE-097.
Fósforo — o nutriente crítico
O P é o gargalo clássico: pouco móvel e fortemente adsorvido nos Latossolos FE-147. Sob doses de 0 a 150 kg ha⁻¹ de P₂O₅, a resposta em altura foi quadrática, com ponto de máxima em torno de 110 kg ha⁻¹ de P₂O₅ FE-005, e o P está entre as variáveis de solo mais importantes para prever a altura das árvores FE-102. Quanto à fonte, o superfosfato triplo (SFT) foi a mais eficiente, e a aplicação incorporada superou a localizada FE-002. Fosfatos naturais reativos (Gafsa, Bayovar) perdem eficiência sob calagem alta FE-002, mas um organomineral de Bayovar + conteúdo ruminal igualou o tratamento-referência em mudas FE-087. Solubilizadores microbianos de P são complemento em teste FE-056FE-050. Alerta operacional: a compactação reduz a recuperação do P, e a adubação fosfatada NÃO a compensa — não adianta reforçar P sem cuidar da física do solo FE-074.
Nitrogênio e Potássio
Nitrogênio. O eucalipto tem baixa resposta à adubação nitrogenada, sustentado pela mineralização da matéria orgânica: em plantios de 1 a 13 anos o N mineralizado foi ~58 mg kg⁻¹, sem diferença entre idades FE-172. As formas NH₄⁺/NO₃⁻ variam com clima e manejo FE-010 e não há preferência marcante entre nitrato e amônio FE-146. Quando se aduba, fontes de eficiência aumentada ajudam: o sulfato de amônio com inibidor de nitrificação (SA-DCD) dobrou a eficiência de uso do N ante a ureia FE-032. O consórcio com Acacia mangium elevou a mineralização líquida de N em 2,5–3,5 vezes frente ao eucalipto puro adubado FE-139FE-133, e a altura máxima (7,8 m) ocorreu com 200 kg ha⁻¹ de N + 50 kg ha⁻¹ de K FE-127.
Potássio. Além de muito exportado FE-169, o K comanda a economia hídrica: regula estômatos e melhora o uso da água, decisivo sob déficit hídrico — no oeste da Bahia, clones diferem na exigência de K (0–120 kg ha⁻¹ de K₂O) FE-091. Marcações com ¹³C mostraram que árvores bem supridas de K transportam carbono no floema com velocidade duas vezes maior FE-063FE-008. Em Neossolo Quartzarênico, 90–180 kg ha⁻¹ de K₂O (KCl) aumentaram a biomassa FE-169, e 120 kg ha⁻¹ de K₂O como fonolito não diferiram do KCl após seis anos FE-130.
Micronutrientes e enxofre no solo (B, Zn, Cu, Mn)
Com clones mais exigentes, deficiências de B, Cu e Zn ficaram frequentes, sobretudo em Cerrado FE-174. Para o zinco, os níveis críticos são baixíssimos — ≤ 0,23 mg dm⁻³ (Mehlich-1) e 0,05 mg dm⁻³ (DTPA) FE-174. O boro merece destaque: em substratos, sua disponibilidade foi o atributo que mais explicou a biomassa das mudas FE-086, e é reponível mesmo em manejo integrado com herbicidas em silvipastoril FE-126. O enxofre aparece no tecido (~1,76 g kg⁻¹) FE-166 e pode vir junto ao N via sulfato de amônio FE-032. Cuidado com fontes: lodo de papel reduziu o Mn radicular, embora tenha servido de fonte de Ca FE-113FE-098; dejetos de suínos elevam Cu e Zn disponíveis, exigindo monitoramento em aplicações repetidas FE-038FE-043.
Resíduos, condicionadores e adubação orgânica
O repertório de resíduos aproveitáveis é amplo, sempre com dose calibrada. A cinza de madeira deu a maior produtividade, superando o calcário dolomítico em solo pobre FE-013, e eleva K e Ca FE-131; já o lodo celulósico/de papel serve de corretivo e fonte de Ca, mas em dose alta prejudica a planta FE-017FE-098. Dejeto líquido de suínos a 80 m³ ha⁻¹ (ou 10 m³ ha⁻¹ + SFT) igualou o NPK mineral no crescimento inicial FE-030FE-022. O biochar de eucalipto fornece Ca, P e K e melhora a eficiência de uso do N FE-145FE-028. Organominerais e pó de rocha aumentaram a produtividade (15 vs 8,2 m³ ha⁻¹) FE-061FE-087, e o lixo urbano compostado rendeu +45,6% no volume de madeira FE-128. A ciclagem via serapilheira é peça-chave: consórcios com acácia depositam serapilheira de melhor qualidade (mais N e P, menor C:N) e aumentam as frações lábeis de C e P no solo FE-082FE-096.
Manejo da adubação no ciclo (plantio, cobertura, manutenção, fertirrigação, iLPF)
A adubação distribui-se em etapas. No arranque, P e K no plantio com coroamento cerca de três meses depois sustentam o crescimento inicial FE-005FE-019. Em viveiro, adubos de liberação lenta e a combinação KCl + MAP melhoram a muda FE-039FE-114. Ao longo do ciclo, a chave é sincronizar oferta e demanda, que variam com a densidade populacional FE-162. Na colheita/reforma, manter os resíduos — sobretudo a casca — atenua a perda de produtividade por compactação e preserva o carbono FE-163FE-103. Nos sistemas integrados (iLPF), os renques exigem doses de N ajustadas por posição relativa às árvores FE-007FE-109, e o consórcio com leguminosas fixadoras (acácia) é a via mais robusta de reposição biológica de N FE-045FE-042.
Recomendações práticas Cultive
- Amostrar solo (0–20 e 20–40 cm) e tecido foliar, comparando com faixas de suficiência calibradas para eucalipto, não com padrões de culturas anuais FE-164FE-166.
- Corrigir a acidez primeiro (alvo pH ~5,5 pelo SMP): a calagem eleva a matéria seca e reduz o nível crítico de P FE-085FE-002.
- P de arranque com SFT incorporado, mirando ~110 kg ha⁻¹ de P₂O₅ em solos deficientes; fosfato reativo só onde a calagem não for alta FE-005FE-002.
- Priorizar o potássio — o mais exportado — em Cerrado e sob seca; 90–180 kg ha⁻¹ de K₂O respondem, e o fonolito substitui parte do KCl FE-169FE-091FE-130.
- Ser parcimonioso com N mineral: dada a baixa resposta, preferir fontes de eficiência aumentada (SA-DCD) e/ou consórcio com acácia FE-172FE-032FE-139.
- Não esquecer os micros em Cerrado: monitorar e repor B, Zn e Cu, de níveis críticos muito baixos FE-174FE-086.
- Aproveitar resíduos locais (cinza, dejeto suíno, organomineral, biochar, composto) com dose calibrada FE-013FE-030FE-145FE-061.
- Cuidar da física do solo: subsolagem/descompactação são pré-requisito — a adubação de P não compensa a compactação FE-074FE-163.
Lacunas e oportunidades de pesquisa
A base é rica em ensaios de casa de vegetação e crescimento inicial, mas escassa em experimentos de longo prazo e a nível de rotação que fechem o balanço aporte × exportação e validem doses de manutenção após vários ciclos FE-158FE-041. Faltam calibrações de gesso agrícola e enxofre para subsuperfície (quase ausentes no corpus) e curvas de resposta de micronutrientes (B, Zn, Cu) por classe de solo e por clone FE-174. A eficiência clone-específica pede recomendação segmentada por material genético, ainda incipiente FE-160FE-170. Por fim, há oportunidade clara em bioinsumos (solubilizadores de P, diazotróficos) e no uso sistemático de resíduos e organominerais como substitutos parciais do adubo mineral — comprovados em escala experimental, mas carentes de protocolos de dose e segurança para o campo FE-050FE-056FE-087FE-145.
Nutrição Foliar
Diagnose foliar: por que e como
A folha é o órgão-indicador do estado nutricional do eucalipto: nela o nutriente se acumula em função da oferta do solo e da demanda de crescimento, o que permite "ler" a nutrição por análise de tecido. Duas abordagens dominam a interpretação: o nível crítico (teor abaixo do qual há perda de crescimento) e o DRIS, que trabalha por relações entre nutrientes. Comparados nos mesmos clones de Eucalyptus grandis, o DRIS descreveu melhor o estado nutricional em função da idade e do tipo de solo, e apontou menos árvores deficientes do que o nível crítico; por este último, P, S e Ca foram os elementos mais frequentemente deficientes, enquanto o DRIS destacou o Ca, sobretudo em árvores de 1 ano em solos arenosos FO-067. O estado nutricional muda com a idade e com o material genético: em base de ~1.986 árvores, as deficiências de N e Ca tenderam a diminuir com a idade da árvore, ao passo que a de P aumentou FO-085. A lição prática é amostrar a folha de forma padronizada (mesma posição, idade e clone) e interpretar por idade/genótipo, não por número absoluto isolado.
O teor foliar também funciona como termômetro da resposta à adubação: varia de forma mensurável sob diferentes esquemas de N, P e K FO-061 e responde a biossólido em povoamento jovem de E. grandis FO-063. Em campo (savana amazônica, Latossolo), o teor foliar acompanhou as doses de N, P e K, com interação N×K sobre a altura FO-036. Cautela: nem tudo que a folha "mostra" é nutrição — em toposseqüência, o crescimento se ligou mais à água do que à fertilidade FO-066.
Sintomas visuais de deficiência
O corpus é mais forte em apontar quais nutrientes tendem a faltar do que em descrever chaves visuais detalhadas. Na silvicultura clonal, o plantio de materiais mais produtivos e exigentes fez emergir sintomas de deficiência de micronutrientes — principalmente B e, mais recentemente, Cu e Zn, sobretudo em áreas de Cerrado FO-045FO-046. A deficiência de boro causa perdas expressivas de produtividade em extensas áreas de Cerrado FO-084. Entre os macronutrientes, P, S e Ca aparecem como os mais limitantes na diagnose FO-067, e o Mg foliar baixo foi associado à "seca de ponteiros" de E. grandis (em interação com o inseto Ctenarytaina spatulata) FO-087.
Micronutrientes pela folha (B, Zn, Cu, Mn)
Aqui está o nicho mais legítimo da adubação foliar em eucalipto. O boro é o caso clássico: aplicação foliar numa única folha madura recuperou o crescimento de plantas deficientes, translocando o B para raízes, caule e folhas novas FO-083. A mobilidade no floema foi comprovada com isótopo: 17 dias após aplicar ¹⁰B numa folha madura, 14–18% do B do tecido novo vinha da aplicação foliar — e a redistribuição ocorreu especialmente sob deficiência (em plantas supridas, o B ficou retido na folha) FO-084. Dois refinamentos práticos: a mobilidade e a resposta são genótipo-dependentes (clones diferem na eficiência de uso de B) e o B foliar complexado (ácido bórico + manitol) move-se mais que o não-complexado FO-083. Para Zn e Cu, a evidência do corpus é de diagnóstico de solo (níveis críticos em Cerrado: Zn ≤0,23 mg/dm³ Mehlich-1; Cu ≤0,12 mg/dm³ Mehlich-1) FO-045FO-046, sem ensaios foliares dedicados — e o Mn foliar praticamente não aparece (lacuna). No viveiro, produtos foliares de fosfito e silício ajudaram a manter sanidade e uniformidade/qualidade das mudas FO-047.
Adubação foliar no viveiro e na formação de mudas
É no viveiro — sistema fechado, fertirrigado, com muda de tecido tenro — que a via foliar/fertirrigada rende mais. A forma e a dose de N na fertirrigação ajustam o estado nutricional e a produção de biomassa de minicepas de E. dunnii no minijardim clonal FO-059, e o estado nutricional das minicepas (teores foliares) se associa ao enraizamento das miniestacas, de modo genótipo-dependente FO-082. Insumos aplicados ao substrato/muda alteram os teores foliares e o CUB — coeficiente de utilização biológica — em mudas de E. benthamii FO-008. Fertirrigação alternativa (águas residuárias tratadas) produziu mudas sadias de E. grandis, mas o adubo mineral foi, em geral, superior e a muda exigiu mais tempo em viveiro FO-065.
Alcance e limites da nutrição foliar em floresta plantada
O grosso da nutrição do eucalipto adulto é, e deve ser, via solo: as respostas de crescimento em campo vêm de N, P e K aplicados ao solo FO-036, de correções e biossólidos que mudam a química do solo e a absorção de macro e micronutrientes FO-081, e os próprios diagnósticos de micro (Zn, Cu) usam níveis críticos no solo FO-045FO-046. Há duas razões de fundo. Primeira, barreira física: a folha do eucalipto tem cera epicuticular abundante (predomínio de hidrocarbonetos), variável entre clones FO-043 — cutícula cerosa dificulta a penetração foliar de sais. Segunda, volume de demanda: uma floresta que exporta toneladas de biomassa não se supre em macronutrientes por pulverização. Mesmo o boro, onde o foliar funciona, entrega só uma fração (14–18%) ao tecido novo FO-084. O lugar da via foliar é, portanto, complementar e corretivo: correção rápida de micros (B sobretudo), manejo no viveiro e situações pontuais — nunca substituindo a adubação de solo.
Recomendações práticas Cultive
- Diagnose primeiro. Padronizar amostragem foliar e interpretar por DRIS + nível crítico, estratificando por idade e material genético FO-067FO-085.
- Boro é prioridade de monitoramento no Cerrado. Onde houver deficiência, usar B foliar complexado como correção rápida, ciente de que a base do suprimento é o solo FO-084FO-083.
- Vigiar o trio B–Cu–Zn na silvicultura clonal; diagnosticar Cu/Zn por análise de solo (níveis críticos) e não presumir correção foliar FO-045FO-046.
- Viveiro é o território da via foliar/fertirrigada: calibrar forma e dose de N pela nutrição e pelo CUB da muda FO-059FO-008.
- Não aplicar silicato foliar por rotina em substrato/solo já equilibrado — sem resposta comprovada FO-034.
- Monitorar Mg foliar em talhões com histórico de seca de ponteiros FO-087.
- Usar o teor foliar como termômetro da resposta à adubação de N, P, K FO-061FO-063.
- Tratar o foliar como complemento, não substituto — macronutrientes de floresta plantada vão pelo solo; a cutícula cerosa limita a via foliar FO-036FO-043.
Lacunas e oportunidades
O corpus "foliar" é, na prática, dominado por doenças foliares e índice de área foliar — há pouquíssimo ensaio de adubação foliar de macronutrientes a campo. Faltam: (i) chaves sintomatológicas visuais por nutriente para eucalipto moderno; (ii) faixas de suficiência regionalizadas e por clone atual; (iii) evidência de campo para Zn, Cu e Mn foliares (hoje só há diagnóstico de solo) FO-045FO-046; (iv) comparações a campo de formulações complexadas/quelatadas de B, que in vitro se mostraram mais móveis FO-083. São oportunidades para a Cultive gerar dado proprietário — ensaios simples de curva-resposta foliar (B complexado; micros) e uma biblioteca de fotoescalas próprias.
Fitossanidade — Doenças
Panorama fitopatológico do eucalipto no Brasil
A eucaliptocultura brasileira ocupa cerca de 7,8 milhões de hectares (76% das florestas plantadas em 2023) DO-081DO-026, em plantios majoritariamente clonais do híbrido "urograndis" (Eucalyptus grandis × E. urophylla). Trinta anos de patologia florestal da Embrapa mapearam o quadro: em viveiro — tombamento, morte de estacas e miniestacas, mofo cinzento, oídio, ferrugem e manchas foliares; em campo — cancros de haste e tronco, murchas vasculares, ferrugem, manchas foliares (fúngicas e bacterianas), podridão de cerne e o complexo Seca de Ponteiros de Arapoti DO-019. As doenças concentram-se nos estágios iniciais (viveiro e plantios jovens até ~2 anos), agravando-se em regiões quentes e úmidas — o Acre é emblemático, com múltiplos patossistemas já na implantação DO-027DO-011. Como a base genética é estreita e clonal, a suscetibilidade de um clone se espalha por grandes áreas, tornando resistência e zoneamento os eixos do manejo.
Manchas foliares e desfolhas (Cylindrocladium/Calonectria, Teratosphaeria/Mycosphaerella)
Complexo Cylindrocladium/Calonectria — o mais citado na base. O agente (Calonectria spp., anamorfo Cylindrocladium: C. candelabrum, C. scoparium, Calonectria pteridis) causa mancha foliar e desfolha desde o primeiro ano de plantio DO-094. Em E. benthamii em Rio Negrinho-SC, a incidência de árvores com mancha variou de 2,6 a 43,8% e a severidade de 1,2 a 2,9 (escala 0–5), em relação direta com a precipitação e com a altura da árvore DO-006DO-048. O verão quente e úmido é o período crítico, e o zoneamento climático indica ajustar a época de plantio para escapar do pico de infecção DO-003. Epidemiologia: penetração via estômatos, com severidade crescente conforme concentração de inóculo, duração do molhamento foliar (6–48 h), idade da planta (60–180 dias) e maior na base do tronco DO-133; a temperatura ótima de infecção fica em torno de 26 °C DO-105. Coocorrem Kirramyces epicoccoides (= Teratosphaeria epicoccoides) e Pestalotiopsis nas mesmas lesões DO-016DO-051DO-054.
Teratosphaeria/Mycosphaerella (mancha de micosferela / MLD) — T. nubilosa ataca E. globulus, espécie das mais suscetíveis, no Sul e Sudeste DO-096; mais de 30 espécies de Mycosphaerella já foram descritas em E. globulus e E. nitens DO-145. T. destructans é a mais destrutiva (queima de folhas e ponteiros) e T. pseudoeucalypti já foi relatada no Brasil DO-080DO-109. A biologia de infecção difere pela temperatura: T. destructans germina melhor a 25–30 °C e T. epicoccoides a 15–20 °C, ambas penetrando por estômatos DO-084.
Evidência sobre clima/CO₂: o aumento da concentração de CO₂ atmosférico tende a reduzir a severidade das manchas foliares e a estimular o crescimento das mudas DO-004DO-046DO-001 — efeito relevante ao interpretar cenários futuros, porém medido majoritariamente em folha destacada/muda.
Ferrugem do eucalipto (Puccinia psidii / Austropuccinia psidii)
Agente _Puccinia psidii_ (= _Austropuccinia psidii_, "myrtle rust"), uma das doenças mais limitantes; ataca folhas, hastes e brotações jovens no viveiro e no campo, reduzindo crescimento, deformando a haste e podendo matar a planta; tem amplíssima gama de hospedeiros (>445 espécies em 72 gêneros de Myrtaceae) DO-078. Condições predisponentes bem definidas: temperatura de 18–25 °C (ótimo 23 °C) somada a molhamento foliar noturno acima de 6 h por 5–7 dias consecutivos DO-098DO-100. Há mapas de risco para ES/extremo sul da BA e para a Região Sul DO-098DO-126DO-127.
Manejo (evidência): a resistência genética é a tática central — E. pellita é fonte promissora (herdabilidade estreita 32,7–37,3%, genes de efeito maior e menor) DO-037; há QTLs aditivos e não aditivos DO-049DO-132; ~60% de E. globulus e ~50% de E. nitens foram resistentes DO-134; parâmetros monocíclicos aceleram o ganho DO-099DO-095. Controle químico: tebuconazol + trifloxistrobina, azoxistrobina e tebuconazol reduzem a severidade com viabilidade econômica a campo DO-097. Indução de resistência: ASM (acibenzolar-S-metil/Bion), preparado de Saccharomyces cerevisiae e Ecolife elevam quitinase/peroxidase e reduzem a doença DO-091DO-110.
Cancros e seca de ponteiros (Chrysoporthe, Botryosphaeria/Ceratocystis)
_Chrysoporthe cubensis_ (= _Cryphonectria cubensis_) — cancro de haste/tronco em regiões quentes e úmidas (>23 °C e >1200 mm anuais); a ampla variabilidade genética facilita a seleção de resistentes, com herdabilidade em sentido amplo ~81% e a lesão no lenho (xilema) como melhor critério de seleção DO-033DO-149DO-073. _Botryosphaeria_/_Neofusicoccum_ — cancro basal em E. benthamii no PR/SC, favorecido por temperatura máxima anual de 23,3–24,2 °C e precipitação de 1.620–1.910 mm DO-024DO-025; Neofusicoccum australe também relatado em E. globulus DO-150. _Ceratocystis fimbriata_ (murcha/seca) — patógeno nativo e habitante do solo, disseminado antropicamente por mudas/estacas colhidas de árvores doentes e por ferramentas de corte DO-067DO-074; a resistência tem forte controle genético (herdabilidade estreita ~50%, ganho de seleção de até −74,4% no tamanho da lesão; clones diferem muito) DO-034DO-147, e há biocontrole de solo com Trichoderma harzianum e Purpureocillium lilacinum DO-104. A Seca de Ponteiros de Arapoti em E. grandis associa-se a temperaturas altas com chuvas escassas DO-113; a bactéria Erwinia psidii também causa seca-de-ponteiros DO-026, e há podridão de cerne em árvores vivas DO-141. Atenção ao distúrbio abiótico VRDSD (hipoxia + excesso de Mn/Fe em solos mal drenados), que mimetiza cancro/seca e exige diagnóstico diferencial DO-090.
Murcha bacteriana (Ralstonia solanacearum) e outras bacterioses
Murcha bacteriana (_Ralstonia solanacearum_, RSSC) — grave em viveiro e plantio, favorecida por altas temperaturas/umidade e áreas recém-desmatadas (relatos no Acre) DO-007DO-011; a biovar 2 infecta "urograndis" e adapta-se facilmente a novos hospedeiros DO-112; há o primeiro relato de R. syzygii no Brasil (viveiro) DO-081 e de R. solanacearum no Equador com 40% de incidência DO-083. Mancha foliar bacteriana — Xanthomonas axonopodis pv. eucalyptorum, sobretudo em viveiro, reduz área fotossintética e desfolha DO-035DO-124; condições ótimas: 4º par de folhas expandidas, 12 h de água livre na folha e 26–30 °C DO-107. Também ocorrem X. euvesicatoria pv. eucalypti (Indonésia) DO-069 e Pantoea agglomerans (África do Sul) DO-146. Manejo (evidência): fosfito + silício em muda DO-092, antibióticos/rizobactérias como Bacillus subtilis DO-136 e metabólitos de Pseudomonas sp. que reduziram as lesões em 89,7–93,9% DO-106.
Doenças de viveiro e de raiz (mela/Rhizoctonia, tombamento, podridões, nematoides)
Tombamento/mela — Rhizoctonia, Pythium, Phytophthora e Cylindrocladium favorecidos pela umidade alta, tecido tenro e adensamento das mudas DO-121. Mofo cinzento (_Botrytis cinerea_) — causa mortalidade em E. benthamii e E. dunnii; sem fungicida registrado para eucalipto, o que impulsiona o biocontrole: Trichoderma atroviride iguala o iprodione DO-013DO-102, Wickerhamomyces anomalus inibe 59,9–86,9% DO-038DO-057 e Gliocladium roseum também atua DO-128; atenção à resistência de _B. cinerea_ a piraclostrobina/tiofanato/fenexamida/boscalida já detectada DO-079. Oídio (_Oidium eucalypti_) — silicato de potássio DO-045DO-060, antagonistas DO-130 e fungicidas piraclostrobina+epoxiconazol/triadimenol DO-139DO-135. Antracnose (_Colletotrichum theobromicola_) — desfolha, anelamento de haste e morte de miniestacas DO-108. Podridão de miniestacas — Botrytis, Fusarium, Cylindrocladium e outros, com fontes de inóculo em substrato, areia e tubetes DO-052DO-014. Nematoides — o eucalipto é hospedeiro de Pratylenchus brachyurus (que multiplica) e Meloidogyne incognita DO-028, e clones reagem diferentemente a M. enterolobii DO-143 — risco a ser avaliado em iLPF. Água de irrigação reciclada dissemina patógenos; a filtração lenta em areia erradica Ralstonia solanacearum, Cylindrocladium candelabrum e Botrytis cinerea DO-111. Podridões de raiz/colo por Phytophthora aparecem em contexto internacional DO-148DO-144.
Bases do manejo integrado de doenças
- Resistência genética/seleção clonal — eixo do controle para ferrugem, Cylindrocladium, cancros e Ceratocystis DO-033DO-034DO-037DO-047DO-053DO-071DO-050; a hibridação amplia a resistência e o potencial produtivo DO-020.
- Sanidade de viveiro — água filtrada DO-111, eliminação de fontes de inóculo em substrato/tubetes DO-052 e não coletar estacas de matrizes doentes DO-067.
- Silvicultura e zoneamento — casar espécie × sítio × época de plantio com mapas de risco DO-003DO-098DO-024DO-100; consórcios/agroflorestas podem alterar a pressão de doença DO-103DO-025.
- Controle químico e indução — fungicidas na ferrugem DO-097 e no oídio DO-139; ASM, silício e fosfito como indutores DO-091DO-045DO-092.
- Controle biológico — Trichoderma e leveduras endofíticas contra manchas, mofo cinzento e murcha vascular DO-043DO-013DO-038DO-104.
Recomendações práticas Cultive
Lacunas e oportunidades
- A base não cobre Quambalaria nem Lasiodiplodia (agentes de mancha/seca de ponteiros citados na literatura mais ampla): cobertura parcial do capítulo de cancros — oportunidade de complementação bibliográfica.
- Ensaios de fungicida a campo com análise econômica praticamente se restringem à ferrugem DO-097; faltam curvas de dano e limiares de ação para manchas foliares e cancros.
- A ausência de produtos registrados para viveiro (mofo cinzento/oídio) força o biocontrole e abre frente regulatória DO-013DO-122.
- Os efeitos de CO₂/clima foram medidos sobretudo em folha destacada/muda; a extrapolação para o povoamento adulto ainda é incerta DO-004DO-100.
- O dano de produtividade por nematoides em eucalipto permanece pouco quantificado, especialmente em sistemas integrados DO-028.
Fitossanidade — Pragas
Panorama entomológico: pragas nativas e o avanço das exóticas
A entomofauna do eucalipto no Brasil combina um complexo nativo (formigas-cortadeiras, lagartas desfolhadoras, grilos, besouros) que migrou de plantas silvestres para o hospedeiro exótico, com uma sucessão acelerada de pragas exóticas australianas introduzidas nas últimas duas décadas: psilídeo-de-concha Glycaspis brimblecombei (2003), percevejo-bronzeado Thaumastocoris peregrinus (2008), vespa-da-galha Leptocybe invasa (2011-2015) e o gorgulho Gonipterus PR-005PR-144. A monocultura extensa e homogênea facilita a dispersão e o estabelecimento desses invasores PR-078; a experiência da Califórnia — 16 pragas australianas estabelecidas entre 1983 e 2008 — mostra que a acumulação não é aleatória e tende a continuar PR-089. Modelos de nicho ecológico já apontam ampla área brasileira apta a futuros invasores (Eucalyptolyma maideni, Trachymela sloanei, Orgyia postica, Sinoxylon anale, Paropsis atomaria, Ophelimus maskelli), sinalizando a necessidade de vigilância fitossanitária permanente e portos de entrada monitorados PR-052.
Formigas-cortadeiras (Atta e Acromyrmex) — a praga histórica nº 1
As saúvas (Atta) e quenquéns (Acromyrmex) permanecem como a praga de maior potencial destrutivo, capaz de eliminar áreas recém-plantadas PR-035PR-139. Ensaios de desfolha artificial quantificam o dano: em Eucalyptus grandis, 100% de desfolha causou perdas já aos três meses, proporcionais à intensidade PR-002; em E. dunnii, 100% de desfolha (30 dias após plantio, simulando Acromyrmex) provocou mortalidade significativa, recomendando-se replantio, enquanto E. benthamii se recuperou após 12 meses PR-060PR-043. A preferência de corte varia com o material genético: Acromyrmex crassispinus e A. laticeps nigrosetosus cortaram mais E. camaldulensis e urograndis, enquanto Corymbia citriodora, E. dunnii, E. globulus e E. cloeziana foram os menos preferidos PR-081PR-133 — um dado útil para escolha de material em áreas de alta pressão. O controle padrão combina iscas granuladas de sulfluramida e monitoramento de formigueiros PR-091, hoje potencializado por detecção automatizada de ninhos por visão computacional/drones PR-035.
Percevejo-bronzeado (Thaumastocoris peregrinus)
Detectado em 2008 (SP/RS/MG) e disperso a nove estados em dois anos PR-040PR-004, o percevejo-bronzeado suga folhas causando prateamento/bronzeamento, secamento e queda foliar PR-034. O monitoramento por cartões-armadilha adesivos amarelos revela picos populacionais no fim da estação seca/início das chuvas — em Rio Doce (MG) o pico atingiu 2.022 insetos em outubro PR-034; picos em SP concentram-se entre outubro e dezembro PR-004. Zoneamentos de temperatura e umidade relativa mapearam a favorabilidade mensal por estado, orientando o calendário de monitoramento PR-027PR-028. O controle biológico clássico apoia-se no microparasitoide de ovos Cleruchoides noackae (Mymaridae), introduzido da Austrália, com criação massal dependente de identificar picos de ovo-hospedeiro PR-003PR-026PR-125. Ensaios de aplicação aérea mostraram que bioinseticidas (Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae) alcançam eficiência comparável aos químicos (tiametoxam, acefato) sobre ninfas e adultos, favorecendo áreas com certificação florestal PR-056. Semioquímicos das ninfas e adultos já foram identificados como pistas para feromônios úteis em armadilhas PR-008PR-070.
Psilídeos: psilídeo-de-concha (Glycaspis brimblecombei) e Ctenarytaina spp.
Quatro psilídeos exóticos ocorrem no país: Ctenarytaina spatulata (1994), Blastopsylla occidentalis (1997), C. eucalypti (1998) e G. brimblecombei (2003) PR-144PR-030. Os danos incluem seca de ponteiros, deformação e quebra de fuste, fumagina, superbrotação e queda foliar, com perdas de produção que chegaram a 30% em referência da Califórnia PR-030PR-120PR-140. O psilídeo-de-concha forma picos em outubro-novembro (São Simão-SP: 3.948 insetos) PR-021; seu controle biológico clássico com o parasitoide Psyllaephagus bliteus (importado do México, 2004-2006) resultou em controle efetivo e é hoje a base do MIP PR-026PR-150PR-144. A resistência varietal é marcante: clones de E. camaldulensis são altamente suscetíveis e os de E. urophylla, resistentes PR-071; a preferência de Ctenarytaina spatulata recai sobre E. robusta e E. pellita PR-001PR-069. Complementos promissores: predação por larvas de Chrysoperla externa PR-038, fungos entomopatogênicos (Beauveria, Cordyceps) PR-092, silício via solo/foliar reduzindo a população do psilídeo PR-068PR-135, e paisagem — bordas com remanescente de cerrado elevam o parasitismo por microhimenópteros PR-095. Para C. eucalypti, o parasitoide Psyllaephagus pilosus mostrou-se tão eficiente que dispensou outros métodos PR-097; para Blastopsylla occidentalis, Psyllaephagus blastopsyllae acompanha a praga (correlação 0,82), com pico de parasitismo na seca PR-029PR-124.
Vespa-da-galha (Leptocybe invasa) e outras exóticas emergentes (Gonipterus, Costalimaita, etc.)
A vespa-da-galha induz galhas em nervuras, pecíolos e ramos, interceptando fotoassimilados e deformando o crescimento, com maior impacto em viveiros e mudas PR-049PR-025PR-072. O manejo apoia-se no parasitoide Selitrichodes neseri (importado da África do Sul, 2015), já recuperado em campo e com potencial de estabelecimento PR-019PR-022PR-129; o parasitoide Quadrastichus mendeli localiza galhas por voláteis (3-carene atrativo) PR-098. A resistência de clones é a via mais robusta — a suscetibilidade se define logo após a oviposição, com respostas de morte celular e metabolismo primário no clone resistente PR-099PR-100PR-083. O gorgulho-do-eucalipto Gonipterus (scutellatus/platensis) desfolha e ressurge no Sul/Sudeste, muitas vezes sem o parasitoide de ovos Anaphes nitens PR-142PR-126; alternativas incluem fungos entomopatogênicos (B. bassiana IBCB-240, M. anisopliae IBCB-364) PR-051, nematoides entomopatogênicos contra pupas no solo (Steinernema yirgalemense, 100% de mortalidade) PR-047 e um microsporídio nativo (infecção de campo até 65%) PR-086. O besouro-amarelo Costalimaita ferruginea injuria folhas de plantios novos, com maior preferência por E. urophylla/urograndis e E. pellita PR-045PR-053PR-082.
Desfolhadores nativos (lagartas), cupins e pragas de raiz/estabelecimento
O complexo de lagartas desfolhadoras cresceu muito: das ~10 espécies (destaque para Thyrinteina arnobia, Glena unipennaria, Sarsina violascens, Eupseudosoma spp.), surtos recentes de Iridopsis panopla e Eacles manuelita levaram a área atacada de 100 mil ha (2017) a 860 mil ha em 2021 PR-036PR-149. O manejo é biológico e seletivo: Bacillus thuringiensis aéreo, parasitoides de ovos (Trichogramma pretiosum, T. pratissolii, T. maxacalii) e de pupas (Palmistichus elaeisis, Itoplectis sp.), percevejos predadores (Podisus nigrispinus, Brontocoris tabidus) e reguladores de crescimento PR-036PR-054PR-127PR-132PR-143. Em Euselasia eucerus, fatores bióticos naturais já removem grande parte da população (parasitismo de 48,9% em ovos e 52,2% em pupas) PR-148. Os grilos (Gryllus spp., G. assimilis) mastigam o coleto de mudas, levando a tombamento e morte no estabelecimento PR-039PR-058PR-136. Cupins e formigas atacam desde o viveiro PR-032PR-015, e há registros pontuais de pulgão (Myzus persicae) e mosca-branca (Bemisia tabaci) em mudas PR-044PR-141.
Controle biológico e MIP-Eucalipto
O eixo do manejo é o controle biológico clássico coordenado pelo Laboratório de Quarentena "Costa Lima" (Embrapa) com o PROTEF/IPEF, responsável pela importação e criação dos parasitoides das principais exóticas PR-026. Sustentam o programa: (i) monitoramento por cartões adesivos amarelos com registro informatizado PR-006PR-114; (ii) conservação de inimigos naturais — o sub-bosque e faixas de vegetação nativa aumentam a riqueza de himenópteros parasitoides (Mymaridae, Scelionidae, Encyrtidae) e reduzem desfolhadores PR-066PR-073; (iii) entomopatógenos (fungos, nematoides, microsporídios) como alternativa aos químicos, essenciais em áreas certificadas PR-051PR-047PR-056PR-092; e (iv) resistência de hospedeiro e silício como base preventiva PR-071PR-068.
Recomendações práticas Cultive
Lacunas e oportunidades
Persistem níveis de dano econômico mal calibrados para a maioria das pragas — a desfolha artificial fornece parâmetros iniciais PR-002PR-060, mas faltam limiares operacionais que traduzam contagem de armadilha em decisão de aplicação. O controle de Gonipterus ainda carece de um parasitoide de ovos eficaz estabelecido no Brasil, abrindo espaço para nematoides e fungos entomopatogênicos PR-047PR-051PR-142. Semioquímicos (percevejo, vespa-da-galha) estão identificados mas ainda não convertidos em armadilhas comerciais PR-008PR-098. Faltam também estudos de impacto da desfolha sobre produtividade em rotação completa e de interação clima × praga sob mudanças climáticas PR-122. A oportunidade central é integrar monitoramento georreferenciado + zoneamento climático + seleção genética + controle biológico num protocolo de MIP-Eucalipto replicável por talhão.
Fitossanidade — Plantas Daninhas
Matocompetição no eucalipto: por que o estabelecimento é a fase crítica
O eucalipto é altamente sensível à interferência da comunidade infestante justamente na janela em que menos se pode falhar: o primeiro ano após o plantio, quando a muda ainda não fechou copa e disputa água, luz, nutrientes e espaço com as daninhas DA-041DA-064. A evidência de período crítico é contundente. Em Eucalyptus grandis × E. urophylla convivendo com Brachiaria decumbens, o período anterior à interferência foi inferior a 14–28 dias após o transplante — ou seja, a matocompetição começa a cobrar preço em menos de um mês DA-064. A largura da faixa mantida limpa também é decisiva: faixas de controle ≥ 100 cm de cada lado da linha garantiram maior diâmetro, altura e crescimento absoluto DA-067, e coroas (coroamento) de 2,51–2,64 m de diâmetro foram as que mais favoreceram o crescimento em altura e diâmetro DA-039.
A perda cresce com a proximidade e o tempo de convívio. Cada centímetro em que Urochloa ruziziensis cresceu mais perto da muda reduziu a massa seca de caule e folhas em 0,06 e 0,32 g/planta, respectivamente (e U. decumbens, 0,03 e 0,14 g/planta) DA-033. A convivência com Urochloa spp. não afetou o eucalipto até 50 dias, mas aos 107 dias já reduzia diâmetro do colo, massa seca total e área foliar DA-036. O efeito é sobretudo por competição, mas há também componente alelopático de resíduos de braquiária incorporados ao solo DA-063DA-069.
Espécies daninhas mais importantes e sua interferência
As gramíneas dominam como alvos. Estudos fitossociológicos em plantios de eucalipto apontam Poaceae, Asteraceae e Fabaceae como as famílias mais ricas, com Galinsoga parviflora muito abundante DA-038. As braquiárias (Brachiaria/Urochloa decumbens, U. brizantha, U. ruziziensis) são as daninhas mais estudadas e mais agressivas no estabelecimento DA-033DA-036DA-064. O capim-colonião (Panicum maximum/Megathyrsus maximus) reduz o crescimento inicial de clones de eucalipto mesmo a poucos centímetros da muda DA-003DA-015. A trapoeraba (Commelina benghalensis), em densidades crescentes de até 80 plantas/m², prejudica altura, diâmetro, área foliar e massa seca, com efeito modulado pela estação (verão × inverno) DA-007DA-014. O azevém (Lolium multiflorum) — biótipos resistentes e suscetíveis ao glifosato — interfere no desenvolvimento inicial de forma crescente com a densidade DA-031, sinal de alerta para o avanço da resistência.
Métodos de controle: químico, mecânico/coroamento e cultural
O glifosato é o herbicida mais usado na eucaliptocultura, aplicado dirigido na linha/entrelinha DA-065. Como não é seletivo, exige jato dirigido e barra baixa: a deriva sobre a muda causa intoxicação real. Plantas com intoxicação inicial acima de 31% tiveram menor altura e diâmetro até 360 DAA, e o ganho em altura caiu acima de 41% de intoxicação DA-066; deriva atingindo 100% dos ramos baixos chegou a reduzir o stand em 18,7–38,2% DA-082. Há tolerância diferencial entre espécies e clones — E. resinifera foi a mais tolerante à deriva simulada DA-073DA-027. Protetores adicionados à calda (fertilizante líquido, Fertiactyl Pós) reduziram a intoxicação sem perder o controle da daninha DA-029DA-030.
Para prolongar o controle no período crítico, os pré-emergentes residuais são o pilar: sulfentrazone (400–600 g/ha, com seletividade variável entre clones — FB3 o mais tolerante) DA-034; sulfentrazone + isoxaflutole veiculados em grânulos de argila para aplicação aérea, controlando B. decumbens, Ipomoea grandifolia, Merremia cissoides e Panicum maximum DA-028; azafenidin (≥ 500 g/ha), eficaz sobre B. decumbens, C. benghalensis, Richardia brasiliensis e Sida santaremnensis por até 180 dias DA-078; e saflufenacil, cujo adjuvante Dash aumenta a fitotoxicidade ao eucalipto DA-041. Misturas de glifosato com chlorimuron-ethyl, isoxaflutole ou oxyfluorfen ampliam o espectro DA-022. Dessecar a cobertura antes do plantio é melhor que "aplica-planta" no mesmo dia DA-037. Já capina química e mecânica não diferiram no crescimento do eucalipto — o que importa é manter a coroa limpa DA-035. Na renovação por rebrota, atenção ao imazapyr aplicado no toco, que pode exsudar pela raiz e afetar a cultura seguinte DA-076DA-077.
Eucalipto tolerante a glifosato (transgênico) — o que a base mostra
A FuturaGene/Suzano desenvolveu variedades geneticamente modificadas de eucalipto com tolerância ao glifosato (HT) como ferramenta de manejo integrado, com o primeiro evento aprovado para uso comercial em 2021 DA-001. O contexto que justifica a tecnologia é a escala: o eucalipto ocupa 7,5 milhões de hectares no Brasil, e a matocompetição eleva custos operacionais DA-001. O material transgênico permitiria aplicar glifosato em pós-emergência sobre a cultura sem o risco de intoxicação que hoje limita a operação DA-066DA-082. Registre-se ainda a hormese: doses muito baixas de glifosato (6,2–20,2 g e.a./ha) aumentaram a massa seca do eucalipto em 11–37% DA-023 — curiosidade fisiológica, não recomendação.
Sistemas integrados (iLPF), sub-bosque e sombreamento no manejo da comunidade daninha
A face inversa: o eucalipto suprime daninhas em sistemas integrados. A comunidade infestante varia conforme a distância dos renques, com o sistema integrado exercendo efeito positivo pela competição por água, nutrientes e luz DA-006DA-112. O sombreamento altera o banco de sementes — em sistema agroflorestal com Eucalyptus dunnii [(4×3)×20 m] identificaram-se 17 famílias e 49 espécies, com composição diferindo entre posições nas entrelinhas DA-018DA-089. A supressão é mensurável: a infestação e a dispersão de Solanum sisymbriifolium caíram quanto mais perto das fileiras duplas de eucalipto (embora a soja também rendesse menos ali) DA-081, e o eucalipto foi testado para conter Eragrostis plana (capim-annoni) em campo nativo infestado DA-050. O contraponto é que, a partir do 3º ano, o dossel passa a interferir na produtividade de grãos e forragem DA-095, e a escolha de forrageiras tolerantes ao sombreamento e da distância às árvores torna-se central DA-021DA-113. Mesmo com o efeito supressor, a base é clara: ainda é preciso herbicida na linha jovem DA-112.
Recomendações práticas Cultive
Lacunas e oportunidades
Faltam períodos críticos atualizados para clones modernos e para daninhas resistentes (azevém, e potencialmente buva/capim-amargoso) em condição de campo comercial DA-031DA-064. A seletividade e a eficiência de novos pré-emergentes e misturas ainda têm poucos dados em escala operacional DA-040DA-041. A alelopatia do eucalipto (folhas como adubo verde) para supressão de daninhas é promissora, mas foi avaliada fora da cultura (ex.: milho), carecendo de validação como tática dentro do plantio DA-043DA-054. A avaliação econômica do controle químico e do transgênico HT em escala operacional é incipiente DA-001. E a dinâmica sombreamento × comunidade daninha ao longo do ciclo (fechamento de dossel) carece de séries longas para calibrar o manejo em iLPF DA-089DA-095.